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José Antunes Jorge

Fonte: moitasvenda.net
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José Antunes Jorge (1903 - 1990)

José Antunes Jorge
José Antunes Jorge em Santa Marta - Foto fornecida por José Maximiano

José Antunes Jorge, conhecido por "Ti Zé Jorge",foi um homem modesto na sua forma de estar no mundo. Com humildade, tanto dava como recebia, pois era seu lema "Convívio, Amizade, Cultura". Simpático, amigo, afectuoso, a todos brindava com a sua natural boa disposição, nunca passando indiferente ao sofrimento alheio. Deixou um invulgar legado de cultura popular. Com inexcedível dedicação foi músico, poeta, letrista de muitas canções, escreveu peças de teatro que encenou e fez representar.


Por volta dos 15 anos aprendeu a tocar na guitarra emprestada por seu padrinho José Capaz. Idealizou um grupo musical e formou-o com 15 figuras, rapazes amigos do seu tempo. O José da Lucinda de Minde foi quem dirigiu os primeiros ensaios. Por volta dos vinte anos, escreveu e fez representar a primeira peça "primavera das flores". Para tal, foi apanhar andorinhas nos beirais. Ataram uma fitinha e as andorinhas foram soltas na representação, dando aspecto primaveril em pleno campo. Quando depois as pessoas viam andorinhas nos céus exclamavam:

"Lá vão as andorinhas do teatro!".

Poeta por excelência, de alma e coração, escreveu centenas de cantigas. A "canção do mendigo" era a sua preferida, e sempre que a cantava sentia uma profunda tristeza pelos muitos pobrezinhos que andavam por este mundo. Em cada Quinta Feira da Ascensão ou Carnaval, saía a marcha do "Ti Zé Jorge".


Reunidos os jovens, escritas as letras, feitas as músicas, passava a alegria pelas ruas desta terra. Com os muitos problemas de saúde familiar reagia com cantigas, música ou novas poesias. Foi emigrante no Canadá, onde enfrentou muitas dificuldades. Nos momentos mais difíceis, voltava-se para o seu Portugal, pedindo ajuda a Santa Marta, com as rezas e promessas. E o senhor José Jorge, o grande senhor, o coração generoso, a alma de poeta ficou no coração e na memória desta gente, deste povo. Recordemo-lo com saudade.

As marchas antigas de Moitas Venda
As marchas antigas de Moitas Venda
As marchas antigas de Moitas Venda


"Fado do Mendigo" de José Antunes Jorge

 Ninguém escarneça do mendigo 
 Porque a sorte assim ordena 
 Pode sofrer esse castigo 
 E cair na mesma pena 
 -
 Um pobrezinho que pede 
 Uma esmola lá na aldeia 
 E tantas vezes sucede 
 Ir deitar-se sem ter ceia
 -
 Tenho o céu por cobertor 
 Tão esburacado de estrelas 
 Quer faça frio ou calor 
 Tenho cama por favor 
 Ao ar livre nas vielas
 -
 As vezes é tanto frio 
 Ti tanta neve a cair 
 Que o miserável vadio 
 Soluça num calafrio 
 Passa as noites sem dormir
 -
 De porta em porta a esmolar 
 Cheio de fome e de amargura 
 A ver se alguém me quer dar 
 Uma esmola por favor
 -
 Aparece alguém do povo 
 Que me dá este perdão 
 Você ainda é novo 
 Vá trabalhar seu mandrião
 -
 Sem lareira e sem abrigo 
 Todos me chamam vadio 
 Só o sol é meu amigo 
 Agasalho do mendigo 
 E eu procuro se faz frio
 -
 A pedrada e escorraçado 
 Negro vejo o meu futuro 
 Sou como um cão esfomeado 
 Igual a tanto desgraçado 
 Em procura do monturo
 -
 Um pai que criou dois filhos 
 E deu-lhe iguais instruções 
 Porque um é pobre cheio de trilhos 
 E outro é rico aos milhões
 -
 A nossa mão tem cinco dedos 
 E nenhuma será igual 
 A vida tem seus segredos 
 Conforme a sorte de cada qual 
 -
 A minha sorte é pequenina 
 E um instante e desfaz-se 
 E tão triste a minha sina 
 Esta vida nunca mais termina 
 E cada qual é pró que nasce 
 -
 O ditado mais verdadeiro 
 Pois não conheço outro igual 
 E quem tiver um signo traiçoeiro 
 Ter de morrer num palheiro 
 Pois nunca lhe erra o portal

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Edição

--Cmsv 22h36min de 4 de dezembro de 2009 (GMT)