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Frei João da Assunção

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Frei João da Assunção

Vulgarmente chamado "O Moutas", da Província da Arrábida (1625 - 1666)

Quem era

Foi Frei João natural do lugar das Moutas de Alcanena, termo da Vila de Torres Novas; Arcebispado de Lisboa, filho de Pedro Coelho e Margarida Gonçalves que viviam da sua lavoura, não muito favorecidos dos bens da fortuna, mas muito tementes a Deus. No mesmo ternor criaram seu filho, sem que lhe fosse violenta a educação, pela sua boa índole e propensão que tinha para as virtudes assim como aversão aos vícios, para o que contribuía muito ser o seu lugar isento deles, como são ordinariamente aqueles em que as gentes se ocupam na agricultura, sem admitir ociosidade, que é o terreno onde os vícios fortificam. Como os pais o viram tão bem inclinado, determinaram consagrá-lo a Deus. Para isso o aplicaram no estudo da gramática, em que aproveitou muito em pouco tempo, pela sua feliz memória e vivera de espírito. Frequentava os nossos frades o seu lugar, mendigando as esmolas de que vivemos. Foi o devoto moço tendo com eles trato familiar e eles criando-lhe amizade, atraídos pela sua modéstia e virtuosas acções que nele notavam. Comunicou-lhes então o desejo de seguira vida religiosa na nossa província.


Não lhe dificultaram eles o consegui-lo, mas representaram-lhe os rigores da nossa Reforma, com que ele não poderia, por ser de compleição muito débil. Nada do que lhe diriam o atemorizava e como viram que o espírito excedia as poucas forras, indicaram-lhe o caminho para porem execução o seu santo desejo, que era buscar o provincial e comunicar-lhe a sua pretensão. Era provincial nesse tempo Frei António das Chagas, a quem foi presente e se soube representar com palavras tão encarecidas e com algumas lágrimas, que são as melhores cartas de recomendação em semelhantes pretensões, não pode o provincial deixar de lhe definir benigno, ainda que lhe demorou o último despacho para melhor provar a perseverança. Como perseverasse fervoso e o exame do latim o fez digno de atenção, lhe concedeu o provincial a patente para ter o ano da aprovação no Convento de Santarém.

Infortúnio

Não faltaram neste meio tempo contradições que vencer, porque o infortúnio lhe armou mil embaraços da parte de seus pais e parentes, incitando-o a que se acomodasse a ser apenas clérigo, em que faria a Deus mais serviço, assistindo-lhes na velhice. Satisfez á suas propostas com razões tão celestiais que se deram por convencidos. Como por este caminho não pôde o inimigo infernal abrir brecha no coração do servo de Deus para desmaiar na empresa, sugeriu ao provincial que ele era de limitada estatura e sem forças para o serviço da Religião, pelo que escreveu ao guardião, ordenando-lhe que não lhe lançasse o hábito e com algum honesto pretexto o despedisse. Chegou a carta, mas tão tarde, que o noviço tinha já o hábito vestido e tão alegre como se estivesse no paraíso. Poucos dias lhe durou esta consolação, porque reflectindo os frades na sua pequenez pela carta do provincial e figurando-lha o demónio ainda mais limitada do que realmente era, assentaram de o lançarem fora na primeira ocasião.

Teve o aflito notícia da resolução dos frades e, juntamente, revelação de que o demónio o representava nos olhos da comunidade mais pequeno do que Deus o tinha feito e não cessava de lhe pedir, por intersecção de Maria Santíssima e do nosso seráfico padre, não permitisse que os defeitos da natureza fossem castigados com culpa. Ouviu o céu a sua lacrimosa súplica, pois teve uma inspiração: todos os dias aparava um pouco as fímbrias do seu hábito, tornando- 9 mais curto e como os frades lho viam mais curto, representou-se-lhes que o noviço crescia a olhos vistos e por isso mudaram de parecer. Chegou-se o dia da profissão, para ele de maior júbilo e para os brades de grande gosto, porque já nele veneraram um perfeito religioso e a fez em 15 de Agosto de 1645, dia da Assunção de Nossa Senhora, tendo 20 para 21 anos de idade. Ordenou-se sacerdote e, como se o constado fosse só o ensaio para as virtudes, que havia de obrar quando chegasse a gozar esta altíssima dignidade, agora se apurou mais nelas.

Condição

A humildade nele era tão profunda que padecia suma aflição quando alguém lhe dava algum louvor. A caridade para servir a todos abrasava e sendo de poucas palavras era naturalmente muito alegre. Na santa pobreza foi um fiel filho de São Francisco, porque de seu nunca se lhe viu mais do que o preciso. No sono foi tão parco que só dormia antes de matinas duas horas ou duas horas e meia e depois das matinas ficava no Coro em oração até hora de Prima. E por mais cansado que viesse de fora não faltava às matinas. Assistiu durante dois meses aos agonizantes no Hospital Real de Lisboa, tendo-se oferecido voluntariamente, quando outros frades se mostravam tíbios e temerosos do contágio de febres malignas que grassavam em grande epidemia. No hospital assistiu não só espiritualmente aos doentes como fazia o ofício de enfermeiro, fazendo-lhes as camas, lavando-os, etc. Terminados os dois meses, regressou ao Convento da Arrábida, mas já ferido de contágio, pois apenas chegou se lhe descobriu uma febre maligna que o obrigou a buscar a enfermaria de Setúbal, onde teve uma santa morte, em 12 de Março de 1666. No seu funeral incorporou-se muita gente, quer do povo, quer da nobreza.

Crónica da Província de Santa Maria da Arrábida, Parte II, Livro III, Capítulo XIV, pág.446 a 458

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Cmsv