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Costumes e Memórias II

Fonte: moitasvenda.net
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Habitação - Construção

Casa Antiga

As casas mais antigas que se encontram em Moitas Venda remontam, provavelmente, ao séc. XVIII e até princípios de séc. XX. Algumas já sofreram restauros, mas encontramos nelas características de construção antiga. Nos tempos mais recuados havia em Moitas de Baixo a «Casa dos Nazarés» família abastada naquela época, e que sobressaía em relação aos restantes habitantes do lugar.

Era uma casa baixa, mas com muitas divisões e um pátio cercado por um muro. Umas paredes de grossura enorme seguravam um telhado de telhas de canudo. Os quartos de pequenas dimensões, onde só cabia a cama e pouco mais, eram divididos por paredes idênticas com 50 cm de espessura. Havia também uma grande sala a que se dava o nome de «casa de fora», onde se encontrava um armário metido na parede e toda a sua guarnição era feita na própria madeira e formava um desenho invulgar. A grande lareira da cozinha, quase de parede a parede, suportava uma chaminé larga que comportava grande porção de enchidos para serem curados, quando havia matança de porco. Era ali na casa de fora que a mocidade de todo o lugar se divertia, fazendo bailes, convívio e gozava os seus tempos livres.

Casa Antiga

As casas desses tempos tão antigos eram feitas de pedras grandes ligadas por barro amassado com areia, ou misturado com cascas de pinheiro e nos tectos apenas telha vã. Com o passar dos anos, começaram a forrar a casa com madeira, junto às telhas, e as paredes interiores passaram a ter espessura muito reduzida porque faziam-nas de «tabique» que consistia em pregar tábuas de madeira lado a lado e em seguida pregar nestas, horizontalmente, ripinhas de 5 cm mais ou menos, e alternando-as com espaços de 5 cm também.

Casa Antiga

Por fim, o tabique era coberto com massa, feita de areia e cal ou barro fino e em seguida eram caiadas com cal. Geralmente, a habitação tinha apenas uma porta com postigo, por onde entrara a luz e o ar. Não havia janelas.

Nas primeiras décadas de séc. XX, houve uma evolução sócio-económica e, com isto evoluiu também a construção. Assim, surgiram algumas casas com requintes e sinais de luxo para época. No andar, várias janelas, varandas com grades de ferro para o exterior. Outras tinham jardins na frente, varandas cobertas com telhado e forradas a madeira, escadarias de pedra, bonitos portões e ferro trabalhado (onde se podem ver ainda as iniciais do dono da casa e data de construção) que dão acesso às varandas.

O acabamento interior também melhorou e aqui em Moitas Venda já havia algumas casas, de gente com mais posses, cujas paredes eram cobertas de estuque e pintadas com bastante arte. Eram, por exemplo, algumas habitações das famílias Maximiano, das Dores, Picado, Ferreira, Baptista, Gonçalves. Na década de 40 começaram a aparecer as casas, que na frontaria principal tinham uma porta ao meio e uma janela de cada lado e eram de rés-do-chão.Nos anos 50 e 60 o género era idêntico, mas enriquecido com uma varanda que dava acesso à porta principal e a uma janela. Algumas eram de primeiro andar.

Casa actual

Nas últimas décadas de séc. XX houve como que uma profunda alteração na construção:

Passou a usar-se cimento, tijolo, blocos de cimento, ferro e a pedra apenas serve para embelezamento na casa actual.

Na nossa terra há habitações que são vivendas bonitas e modernas. O espaço da casa tornou-se maior e passou a ter amplos quartos e salas, várias casas de banho, fogão de sala, aquecimento central, telefone e televisão, ar condicionado e todas as comodidades como em qualquer outro lugar.

No virar deste século tem-se notado que emigrantes da nossa terra, que se encontram no Canadá e Estados Unidos, tem cá recuperado casas que pertenciam aos pais e construindo outras de novo, que são ricas vivendas, e até blocos de apartamentos.

Interior da Casa Tradicional e Mobiliário

Casa de fora

Nas casas mais antigas, com apenas uma porta, esta dava entrada para a casa de fora,cuja mobília era geralmente uma mesa tosca encostada à parede e coberta por uma cortina de renda ou chita e sobre ela estava um relógio de parede, uma ou outra fotografia antigas e os candeeiros de petróleo. A volta, uma ou duas arcas grandes recolhiam os cereais e serviam de assento a quem chegasse, havia também umas cadeiras. O quarto

O quarto

De dimensões reduzidas, tinha apenas uma cama de ferro com varões de latão amarelo e uma cadeira ao lado. O colchão de riscado era cheio de «camisas» das espigas de milho, que previamente eram desfiadas e preparadas para que a cama fosse macia. Cobria-se com mantas de trapos e mantas mindricas.

A cozinha

Cozinha tradicional antiga

Divisão ampla da casa, o mobiliário era extremamente pobre. Constava de um armário com prateleiras, donde pendiam cortinas de chita.

Na parede superior colocavam- se as loiças, ao centro era a cantareira, que suportava dois cântaros de água e nas prateleiras inferiores punham-se os púcaros dos queijos no azeite, dos lombos do porco em conserva, da banha de porco que eram o «arranjo» para a família durante o ano. A cozinha tinha uma mesa com duas gavetas, para pôr talheres, que constantemente tinham de ser limpos com lixa, porque ganhavam ferrugem, e à volta da mesa alguns «mochos» (bancos) e cadeiras.

Acima da mesa, na parede, estava a grade enfeitada com papéis recortados onde penduravam as panelas e tachos de esmalte. Uma arca pequena era cheia de figos e, à tarde, ao jantar ou à ceia, com aguardente servia de aconchego, quando sentados sobre a lareira em pequenos bancos. Todo o mobiliário da casa era pobre e de pinho branco, comprado na feira da Santana em Minde.

A despensa era a divisão da casa onde se guardava a salgadeira com a carne de porco em sal, durante todo o ano, a talha do azeite, a arca do pão que era cozido em cada casa semanalmente, os alguidares para amassar o pão, fazer os enchidos, lavar a roupa, e havia ainda o «canto das batatas», que cada família cultivava para ter todo o ano.

Casa de banho

Não havia. Serviam-se de uma alguidar para se lavar um pouco melhor. Nas partes mais afastadas do quintal tinham a retrete.

Logradouro (pátio e o quintal)

O Logradoro
Entrada para o pátio
Interior do pátio

Junto às casas havia o pátio. Nele estava o poço de água ou cisterna, para recolher a água das chuvas que caíam nos telhados e, pegado à cisterna, os tanques para lavar a roupa semanalmente. Também a casa de forno estava perto e era ali que se cozia o pão todas as semanas e se faziam os bolos dos Santos e se coziam em panelas de barro os feijões. Todo o pátio estava atapetado de matos, que, com o tempo, apodrecia e servia de estrume para as terras. Nesse pátio havia ainda as capoeiras das galinhas, as coelheiras, a cortelha dos porcos, os currais com algumas ovelhas e cabras, o palheiro da mula e do burro e onde se guardavam as palhas para alimento dos animais.

Numa parte mais afastada, a cova com bagaço para dar aos porcos, e quase sempre, a retrete. Esta era feita num recanto do pátio ou do quintal, que tapavam provisoriamente com tábuas e no interior uma tábua com um ou dois buracos redondos servia de assento e era aí que faziam as suas necessidades fisiológicas durante o dia. De noite serviam-se debaixo da cama, no quarto. Do pátio passava-se ao quintal onde se cultivavam figueiras, parreiras e oliveiras. Junto aos muros malmequeres, sardinheiras e roseiras. Na verdejante semeado de ferrejo ou aveia para os quintal era a eira, usada para a debulha dos cereais.

O casamento

Trage típico do casamento - Foto tirada na capela do Largo da Venda

O Namoro

Nos tempos mais afastados, muitas vezes os pais interferiam junto dos filhos, na escolha da jovem com quem os filhos iriam casar. Olhavam muitas vezes às propriedades e bens que os pais tinham. O tempo de namoro era recatado.

Só ao domingo à tarde tinham autorização dos pais da jovem para namorar, o que acontecia à janela da casa ou à porta, mas esta tinha que estar aberta. Alguns anos depois, começaram a namorar também à quarta-feira à noite. O namoro era até ao cair da tarde e quase sempre a rapariga ia fazendo renda para o seu enxoval.

Quando tinham intenções de casar, o rapaz pedia autorização aos pais da namorada para entrar em casa. Então passavam a encontrar-se na sala ou casa de fora, com a porta aberta para a cozinha, onde estava sempre a mãe na lida caseira e, ao mesmo tempo, vigilante ao namoro, não fosse acontecer alguma coisa que pudesse pôr a sua filha «nas bocas do mundo» e envergonhar a família.

O Pedido de Casamento

Quando resolviam casar-se, o rapaz pedia aos futuros sogros a sua filha em casamento e outro assunto que também era tratado era o da casa para os noivos. Aqui em Moitas Venda dependia da situação económica do pais, mas em geral a casa era construída a meias pelos pais de ambos e o terreno era cedido por um deles, pois os pais tinham sempre a preocupação de arranjar um bocadinho de terreno para as casas dos seus filhos.

Além disso, era marcada a data do casamento pela noiva, conversavam sobre o local para a boda, que era sempre nalgum barracão, casa desabitada ou no rés-do-chão da casa dos pais, ou até improvisavam qualquer cômado com oleados junto a espaço que pudesse servir para esse efeito. Nunca esqueciam também que, para o baile do casamento, tinha que haver concertina, harmónico ou gaita-de-beiços .Era necessário contratar alguém bem como as cozinheiras, que foram, ao longo dos tempos, Sr.a Carolina Jeneta, Mercês Ferreira, Maria Silva, Sr.a Maria do Rosário e Zélia Rodrigues.

Convites

As primeiras pessoas a serem convidadas eram os padrinhos e madrinhas e faziam-no com um mês de antecedência. A noiva era acompanhada de casa para a igreja por duas madrinhas, que eram do Baptismo e da Crisma, enquanto que o noivo ia com os dois padrinhos igualmente do baptismo e crisma.

As jovens que iriam servir à mesa eram as amigas da noiva e quase sempre todas as da idade dela ou todas da terra e eram também convidadas com um mês de antecedência. Os outros convites eram feitos apenas com quinze dias. A noiva, ao ir fazer os convites, ia acompanhada por alguém da família dela a casa das pessoas. Os pais estavam sempre muito presentes também.

Se o casamento era de familiar chegado, ia toda a família da casa, mas se não fosse, geralmente ia o homem porque só ele era convidado. Actualmente nada se passa assim. Os noivos convidam com dois meses de antecedência, enviando um cartão, onde dizem o local e hora do casamento e o convite é sempre dirigido ao casal. A mulher não fica em casa.

Vésperas de Casamento

Fazer as camas

Esta altura era de grande movimento com os preparativos para o evento. As jovens, as madrinhas e familiares ajudavam a noiva a compor a casa, que tinha sempre o quarto do noivo e o quarto da noiva além de outras divisões.

O enxoval da noiva, era feito por ela ao longo dos anos de solteira e nesta altura as pessoas reparavam muito na habilidade com que fez os seus bordados e rendas, que agora estavam a aparecer para embelezar a casa. O quarto do noivo era arrumado pelos familiares dele mas a cama da noiva eram as jovens que se encarregavam de a fazer, sem que a noiva estivesse presente.

A volta disto, havia sempre muita diversão e paródia. Sobre o colchão era posto um lençol dobrado para servir de resguardo. Havia este cuidado, porque as noivas iam virgens para o casamento e então queriam evitar manchas resultantes do desflorar da noiva. Depois seguiam-se os lençóis normais que eram sempre bordados e o melhor que cada noiva conseguia fazer. Muitas vezes faziam malandrices nas roupas da cama para aborrecer os noivos.

Preparar a Boda

As jovens iam a casa dos familiares e vizinhos dos noivos pedir emprestado toalhas de banquete, loiças, talheres e copos para a boda, porque eram sempre muitos convidados e os pais não tinham que chegasse. Logo ao chegar ao local da boda, tiravam dos cestos as peças pedidas e marcavam-nas, para não se trocarem. Começavam a dedicar-se à comida e coziam as fornadas de pão para estar fresco no dia do casamento, faziam os bolos de cabeça, os coscorões, o arroz-doce, partiam-se as carnes, depenavam-se as galinhas, punha-se a lenha a jeito, porque era feito numa lareira improvisada no chão, onde o lume se encarregava de cozinhar os manjares em grandes panelas de esmalte.

Arrumavam as mesas, que eram bem compridas e completavam-nas com as toalhas brancas, os pratos, copos e talheres e ao longo das mesas punham tábuas apoiadas em algumas cadeiras, e ali se sentavam os convidados. Havia sempre a mesa dos noivos, dos padrinhos e madrinhas. As mães andavam na cozinha a verificar se tudo estava bem. As jovens é que serviam à mesa e, quando acabava o jantar, seguia-se o baile até altas horas. Depois, muitos iam até à Fonte de Santa Marta refrescar a cara acompanhados do tocador.

Era costume os pais dos noivos mandarem um tabuleiro a casa de cada padrinho ou madrinha. Cobriam-no primeiro com uma toalha, quase sempre de linho bordado, e compunham-no com uma grande travessa de arroz-doce, bolos de cabeça maiores que os normais, um prato de coscorões, um garrafa de vinho, carne de porco, chouriços e algumas fruta. Por cima de tudo era colocada outra toalha, esmeradamente bordada ou cheia de rendas. Nos tabuleiros ia sempre o melhor que tinham e eram feitos com muito brio e gosto.

Ementa

Habitualmente, na festa do casamento serviam os seguintes pratos:

  • Sopa do caldo de carne, onde se juntava massa de meada
  • Sopa de canja de galinha com arroz
  • Carne de carneiro guisada com batatas
  • Cozido de carnes de carneiro, de porco e enchidos, acompanhado de couves e batatas cozidas no mesmo caldo
  • Galinha ou galo corado no forno acompanhado de arroz corado com rodelas de chouriço.

O normal era sempre o prato da sopa e dois pratos de carne, mas escolhidos de entre os que foram acima mencionados. Sobre a mesa havia pires com azeitonas e queijo de cabra no azeite partido em fatias e cestos com pão. A finalizar a refeição aparecia algumas frutas da época e geralmente dos quintais da família, sobretudo laranjas, e seguiam-se travessas de arroz-doce, coscorões, bolos de cabeça partidos aos pedaços.

Actualmente, tudo é mais fácil. A boda é feita em restaurante que tem ao seu cuidado todos os preparos. A refeição é mais farta de iguarias e há mais conforto e comodidade nos salões já feitos para servir casamentos. Não podemos esquecer que hoje há sempre o grande bolo de noiva para repartir por todos.

O Dia do Casamento

Os vestidos de casamento mais antigos usados em Moitas Venda eram pretos, compridos e a noiva levava uma mantilha de renda na cabeça. Seguiram-se vestidos de cor bege e cinza claro e já eram um pouco mais curtos. Em 1921 casou a senhora Marcelina (padeira) com fato bege rosado, comprido, enfeitado de barras bordadas e já levava véu, trazidos da América por um familiar seu que veio ao casamento. A primeira noiva que se vestiu com vestido branco e comprido foi Matilde Maximiano, que casou em 1930 e foi morar para Vila Moreira.

A partir dessa altura, a moda foi pegando e na década de 40, já era normal as noivas vestirem-se de branco com véu e grinalda, levando ao peito «o raminho da pureza» usado apenas pelas jovens que iam virgens. Também começaram a usar o tradicional ramo de noiva, mas um ramo simples feito com as flores dos quintais das pessoas daqui. Se alguma noiva fosse grávida, não podia ir de branco, diziam as pessoas que «não o merecia». O véu e grinalda eram sempre alugados em Alcanena ou Torres Novas.

Dia de casamento - Noiva acompanhada pelo pai

Antigamente, o fato do noivo era preto, de calça justa e jaqueta cintada. Vestiam camisa branca com preguinhas e na cabeça levavam chapéu de aba larga. Mais tarde, foi-se acompanhando a evolução da moda e comprava-se fato completo que pudesse servir depois em diferentes alturas. Até perto de 1970 manteve-se o costume de o noivo ir buscar a noiva a casa dos pais dela. A noiva preparava-se e estava pronta no quarto dela à espera que chegasse o noivo. Este ia acompanhado dos seus convidados e, ao entrar em casa da noiva, dirigia-se ao pais dela para lhes pedir autorização para levar a filha para o casamento.

Era sempre emocionante este momento e a noiva saía com as lágrimas nos olhos depois de se despedir dos pais. A noiva seguia o caminho no meio das duas madrinhas, atrás o noivo com os dois padrinhos e os convidados de ambos. Os padrinhos levavam sempre bolsas com amêndoas para atirar ao ar e dar às pessoas no fim do casamento. Durante muitos anos as pessoas iam casar-se a Alcanena. Iam em carroças e em burros. Por volta dos anos 30 / 40 do século XX já alguns iam em camionetas alugadas à «empresa Claras» de Torres Novas. Passaram a casar-se na capela da nossa Senhora da Conceição, em Moitas Venda, e o último casamento aqui celebrado foi o do Sr. José Reis Marques com a Sr.a Deodata Reis Maximiano. O primeiro que se celebrou na igreja paroquial foi o do Sr. João Ferreira com a senhora Constança Gonçalves.

Da capela ou da igreja paroquial para casa, todos iam a pé e, ao chegar à porta dos noivos, os pais, os padrinhos e alguns familiares faziam roda e os noivos iam cumprimentar todos e pedir a bênção dizendo «Dê-me a sua bênção» e beijavam-lhes a mão. Os noivos abriam a porta e tinham que entrar com o pé direito, seguidos de todos os convidados. Nessa altura, qualquer pessoa ia ver a casa dos noivos, mesmo que não fosse convidada e também iam ver o casamento à igreja ou à capela. Seguia-se a boda e baile durante toda a noite, continuando a festa no dia seguinte com duas refeições mas mais simples que as do primeiro dia.

O "Baile das Visitas"

No fim da semana seguinte ao casamento, havia o baile chamado das fogaças, com a finalidade dos noivos receberem «as visitas», que eram as prendas dos convidados. No final do baile, os convidados dirigiam-se para uma divisão ou sala, onde havia uma mesa posta com bolos e vinho doce e os noivos davam cálices de bebida à medida que recebiam algum dinheiro ou qualquer outra lembrança. No final, davam um bolo de cabeça a cada pessoa.

A Benção

No domingo a seguir ao casamento, todos os noivos iam à missa e ajoelhavam junto ao altar onde recebiam a bênção do Sr. Prior.

As Comadres

Um dos costumes mais antigos refere-se às pessoas amigas que se ficavam a tratar por "comadres", entre parturientes e parteiras — estas mulheres voluntárias, experientes e corajosas, sempre prontas a ajudar novas crianças a virem à luz do dia. Davam-lhe banho durante quarenta dias rigorosos que se cumpriam após o parto, ao que se dava o nome de regimento ou resguardo e que quando eram baptizadas só elas as levavam à pia baptismal.

Eram dignas de todo o carinho pelo trabalho que prestavam ao próximo. Temos na lembrança Constância de Jesus Gonçalves, Ana do Cláudio, Conceição Caetano, Maria Marques e Maria Mercês Silva Ferreira, esta última de Casais Robustos. Saídas de casa estas mulheres, para as diversas tarefas da sua vida no dia a dia, em qualquer rua ou lugar público se encontravam com uma comadre, que a partir daí permanecia através dos tempos. Estes sentimentos solidificavam um ambiente sadio, pois considerava-se uma comunidade em família.

Agricultura

Até meados do séc.XX, todos os campos ao redor de Moitas Venda eram cultivados com enxada de pontas, nas zonas mais altas e pedregosas, e com charrua, charrueco ou arado nas partes planas e mais baixas.

As culturas da época eram o trigo, milho, aveia, batatas que se cultivavam nas mesmas fazendas onde cresciam oliveiras e figueiras. A exploração dos terrenos era feita em regime de pequena propriedade, onde muitas vezes existiam poços com pequenas nascentes, donde a água saía através de noras, picotas ou mesmo puxada a braços com balde. Encontram-se ainda muitas oliveiras plantadas pelas serras que rodeiam a nossa terra e que hoje estão ao abandono.


As mulas, os burros e as juntas de bois tiveram papel relevante na agricultura porque, ajudando o homem, eram estes animais que trabalhavam com os instrumentos da época para lavrar os campos e debulhar nas eiras. Eram também muito usados para puxar a carroça ou galeras, que eram os meios de transporte que tinham ao dispor. Os campos eram adubados com o estrume conseguido com os excrementos dos animais que criavam e com o apodrecimento dos matos que atapetavam os currais e pátios.

Sementeira de trigo

Em Novembro caíam as primeiras chuvas e iniciava-se a cultura do trigo. Os campos eram lavrados e adubados e o semeador tirava a semente dum saco, que trazia atado ao ombro, e deitava-a à terra. Depois, a terra era gradada para tapar as sementes.

Monda

Passados alguns meses, já na primavera, era preciso tirar as ervas daninhas do meio do trigo, para que crescesse à vontade. Este trabalho era feito por grupos de mulheres com sachos, que cantavam muitas vezes ao desafio para esquecer a dureza do trabalho.

Ceifa

o trigo continuou a crescer e as espigas, já maduras, pedem para ser cortadas. Era em Junho e Julho que acontecia a ceifa, feita por homens de gadanha em punho e mulheres de foice que o cortavam e punham aos molhos, para ser transportado para as eiras.

Debulha

Nas eiras espalhava-se o trigo pelo calcadoiro, com mulas guiadas por um homem. Mais tarde, com as mulas a puxar o trilho (instrumento agrícola que veio facilitar a debulha), o cereal era pisado e assim o trigo saía da palha. Nos dias de vento norte, fazia-se a separação do trigo da palha, atirando ao ar o que estava pisado na eira e o vento empurrava a palha para trás e a semente caía mais à frente. O trigo era ensacado e guardado nas grandes arcas. Ficavam as «alimpaduras», que eram os bagos de trigo misturados com alguma palha e grãos de terra e que eram dados às galinhas para fazerem o aproveitamento.

O milho

A sementeira e colheita do milho eram em alturas diferentes das do trigo e tinham processos diferentes depois da colheita. As espigas eram apanhadas e deixavam-nas uns dias ao sol.

A descamisada

Consistia em tirar «as camisas» ao milho, isto é, as folhas que cobriam a espiga. Este trabalho era feito pela família do agricultor, com ajuda dos vizinhos e alguma comadre ou amiga. Raramente apareciam espigas vermelhas e essas eram guardadas e penduradas nas paredes para enfeitar. Quem a achasse ficava feliz e ia beijar todos os que se encontravam naquele trabalho. Era «o Milho Rei». Este trabalho era feito à mão com a ajuda de um prego grande ou um pau aguçado, para puxar as folhas.

Descarolar

As espigas, já secas, precisavam de largar o milho do carolo (parte interior da espiga). Tinha que se descarolar o milho. Para isso, punha-se na eira e alguns homens com manguais (2 paus de madeira ligados por uma correia de couro) e com movimentos coordenados iam batendo nas espigas e o milho soltava-se do carolo. Mais tarde, esse trabalho era feito por uma maquineta manual que pertencia a dois homens do Vale da Serra. Carregavam a máquina num burro e vinham a casa das pessoas fazer o trabalho. Um metia as espigas na máquina, enquanto o outro dava à manivela para que o milho caísse dum lado e o carolo do outro. Alguns bagos ficavam ainda agarradas mas de novo os familiares e vizinhos, sentados à volta do milho, concluíam esse trabalho, que era quase sempre pago com tigelas de grão ou feijão, pão cozido, garrafas de azeite, que as pessoas tinham da sua produção. Desfiar as «camisas» do milho: Era outro trabalho que se seguia. Tinham que se preparar as folhas de milho para encher os colchões que habitualmente eram todos os anos renovados.

Outras Culturas

Além dos cereais, cultivavam batatas, grão, feijão, chícharos, favas, ervilhas, abóbora. Alguns destes alimentos eram malhados nas eiras e limpos com a ajuda de crivos.

Debulhadoras Mecânicas

Por volta dos anos 60 apareceram as máquinas debulhadoras que debulhavam os cereais, limpavam e enfardavam a palha e este trabalho passou a ser feito numa única eira, onde todas as pessoas da terra iam pôr os seus cereais. O trigo e o milho eram usados para o fabrico do pão. Para isso levava-se um talego de milho ou trigo ao moinho e vinha de lá a farinha para o pão. Presentemente, e já há alguns anos, deixaram de se cultivar cereais nos nossos campos, por não ser rentável.

A apanha da azeitona

A oliveira, ao longo dos tempos mais recuados, teve enorme importância na economia da nossa terra. Quando as pessoas conseguiam amealhar algum dinheiro quase sempre investiam em «fazendas» com olival. Ter olivais era sinal de riqueza nesses tempos. Era em Novembro e Dezembro que se processava a faina da apanha da azeitona. Este trabalho era feito por homens que subiam às oliveiras e arrepanhavam ou batiam com varas, para que o precioso fruto caísse sobre grandes panos, colocados à volta do tronco da árvore.

Era apanhada do chão, limpa e ensacada, com a ajuda de mulheres e, quando chegava para uma medura, seguia para o lagar. A apanha da azeitona envolvia os familiares, mas também vinham ranchos de «azeitoneiros» das serras para fazer este trabalho. Considerava-se "serras" toda a zona de Santa Catarina da Serra, Reguengo do Fetal, e outras terras à volta de Fátima. Esses ranchos tinham o costume de, pela madrugada, ainda noite, tocar búzios que se ouviam por toda a aldeia e que davam o sinal da partida para o olival. Notava-se a presença dessas pessoas na nossa terra também ao domingo, na missa, vestidas com saias bem curtas e justas, aventais bonitos, garridos e bordados, e na cabeça «cachenés» de cores vivas, atados ao alto da cabeça com as pontas saídas. Nas tardes de domingo, para se divertirem, um deles tocava realejo ou harmónio e bailavam uns com os outros e com os jovens cá da terra.

Era nos palheiros, onde se guardava a palha, que os azeitoneiros dormiam, usando palha para cama e cobrindo- se com mantas. A comida, faziam-na nas casas de forno dos patrões e cozinhavam em lume, em panelas de ferro ou de barro, os feijões e as couves com feijão. Concluída a apanha da azeitona, havia a «Adiafa» que era uma refeição melhorada de carne, filhos feitas da massa de pão e vinho e era oferecida pelos donos do olival.

O Rabisco

Depois de terminado o trabalho das meduras levadas ao lagar, era o próprio lagar que dava o sinal para o rabisco. As pessoas mais pobres, que não tinham oliveiras, pediam autorização aos donos dos olivais para irem rabiscar os bagos que ficaram debaixo das oliveiras. Por fim, o azeite vinha do lagar em ôdre e bilhas de lata e era metido em talhas de barro e pias de pedra que se encontravam nas dispensas ou nos celeiros ou nas partes do rés-do-chão a que chamavam «loja». Actualmente, em Moitas Venda, bem como nos locais à volta, a azeitona é apanhada apenas pela família. Deixaram de se ver os ranchos de azeitoneiros como antigamente se viam, porque os salários são elevados. Isto acontece já nas últimas décadas do século XX.

Indústria de Curtumes

Processo manual da indústria de curtumes

Diz-se que foram os galegos, habitantes da Galiza, província Espanhola, que lhe deram início nesta zona. Na nossa freguesia, nos anos 1900, a primeira fábrica foi de João da Silva e José Capaz Gonçalves no sítio do Vale Baralha, que fabricava "atanados" ou cabedal. Com o decorrer dos anos, foram surgindo mais fabricantes, chegando a atingir cerca de 90 no anos 1940. Alguns com instalações fabris, outros aproveitando a sombra das oliveiras, próximas de poços com água e ali curtiam as peles em celhas. Decorria a Segunda Guerra Mundial (1939-1944), o que veio afectar também a indústria de curtumes.

De noventa que existiam na nossa freguesia, apenas ficaram cerca de dezassete, em laboração lenta e de poucos recursos.

Ruínas da freguesia de uma charola (indústria de curtumes primitiva)

Em Portugal, esta indústria, não sendo de grandes dimensões, é sem dúvida uma das que, em conjunto com a de calçado, é uma fonte de divisas do nosso país. No concelho de Alcanena, houve um progresso muito acentuado que veio favorecer a situação económica dos seus habitantes. Os industriais portugueses, tendo conhecimento, através dos colóquios, reuniões quer nacionais, quer internacionais, da evolução mundial da indústria de curtumes, foram-se consciencializando que era preciso criar novas instalações e máquinas, visto que o país nos dava hipóteses de um crescente desenvolvimento. Mas a indústria de curtumes sempre foi e é uma indústria de algum progresso, mas também de alguns insucessos. Com a abertura a novos mercados mundiais, o custo elevado de matéria-prima, muitas unidades fabris foram fechando as suas portas, e atravessam-se hoje grandes dificuldades financeiras. No entanto, no concelho são lideradas por moitenses algumas das mais importantes unidades fabris.

Comércio Tradicional

Está ainda viva na memória a taberna do Júlio, centro de cavaqueira e agência das camionetas da carreira. A loja da Encarnação tinha de tudo, desde os candeeiros de petróleo e das vassouras, do açúcar e do vinho até às pedras-ardósia da escola e as penas de escrever. O ti João Arsénio, tinha a taberna dos tremoços e dos rebuçados a meio tostão. A ti Gracinda tinha tecidos a metro entre as bilhas de barro e a ti Arminda vendia de porta em porta as rendas, os elásticos, os colchetes, as molas, as flanelas das combinações às florzinhas. A menina Ermelinda tinha a lojinha dos tecidos no vão da escada e dava injecções quer na sua casa, quer deslocando-se a casa dos doentes. A ti Quitéria já tinha carta de condução! E ia mais longe com a sua venda. A tia Maria Gineta era uma comerciante de ovos e galinhas, para além das hortaliças, que trazia do mercado, da taberna e da loja.

E a Gertrudes Ferreira, ao Domingo à tarde, vendia tremoços de porta em porta. Mais acima, a taberna do António da Juliana. Aos domingos, era ali o entretém do jogo da malha. A ti Júlia Bajé do Joaquim das Vacas ia a Porto de Mós de carro de bois comprar as frutas e os legumes que vendia em sua casa.

Depois o Olímpio Alho tinha de tudo, taberna, loja ...Enfim, gente laboriosa que servia a população no tempo em que transportes fáceis e supermercados ainda estavam longe. E vinha o homem da mala, da Brogueira.

A bicicleta, no suporte trazia a mala de latão, recheada de alfinetes, molas do cabelo, elásticos, pentes etc. Pedalando calmamente, parava aqui e ali, sempre disposto a um sereno dedo de conversa. Estes e outros elementos foram percursores do comércio actual. Foram-se extinguindo alguns destes espaços.

Outros persistiram e muitos outros se criaram entretanto. Com a evolução vieram as lojas bem fornecidas, o mercado diário, as roupas, os materiais de construção e até automóveis. Pode dizer-se que a população tem ao seu alcance todos os produtos de primeira necessidade.

A Feira

A feira de ano no Largo da Venda trazia a Moitas Venda grande movimento. Logo nos primeiros dias de Janeiro, o acontecimento suscitava curiosidade. Brincava-se com os mais ingénuos. Por exemplo, no dia 5 diziam:

"Vem cá um homem à feira que tem tantos dedos na mão quantos dias tem o ano!"

E havia quem respondesse com um ar verdadeiramente espantado. Vinham duas barracas muito compridas. A do chinês e a do senhor santos. Ficavam, às vezes, até à feira de Março, em Torres Novas. Vinha o Carrossel, a barraca dos espelhos, a da mulher aranha e também as barracas misteriosas da rua do cemitério, onde jovens e crianças não tinham acesso. Na barraca da bruxa, os mais curiosos tiravam a sina para saber o futuro. E o fotógrafo tirava o retrato à "La Minuta" nas velhinhas máquinas de "Olh'ó passarinho".

Que encantamento! Os balões, as bonecas, as bolas de elástico, os carrinhos de lata, os canivetes e os pentes dentro da vitrina, as colheres de pau, milhentas coisas! Era o segundo domingo de Janeiro. As vezes chuva, às vezes sol radioso de inverno. Vinham os de fora e os de cá encher de gente o velho Largo. O João Batista montava a barraca dos petiscos, com caldo de morcela e bom vinho. E na rua espalhavam-se artigos vários. A barraca dos fatos era comprida, cheia de casacos e calças de boa qualidade. E, na segunda feira, um estendal enorme de loiça na rua da igreja, fazia grande negócio. Mas o outro grande dia das crianças, era quando o Chico da Barraca começava a desmontar e distribuir brinquedos defeituosos. No dia seguinte, na escola, não se falava noutra coisa.

Teve esta feira início em 1942, por iniciativa de alguns homens interessados no negócio. Entre eles Américo Silva, José Jesuíno e outros que possuíam rebanhos. De notar que já se realizava até ali, e regularmente, uma feira de gado de apreciável dimensão, na Trougueira, com afluência de muitos comerciantes. Mas os tempos mudaram, o interesse alterou-se e a feira também. Passou a ser organizada de forma mais actual, promovendo o comércio local e as associações culturais, não descurando de forma alguma a tradição gastronómica num bar de ocasião sempre concorrido. O caldo de morcela, o bom vinho, as filhos e o café, acrescentado mais recentemente com o bailarico, faz deste acontecimento uma curta, mas bem agradável festa de convívio.

Emigração

Moitas Venda é uma terra fortemente ligada à emigração. Calcula-se que tudo começou por volta de 1900 e que a primeira pessoa que emigrou foi para a América e era marido da Senhora Rosa Reis. Mais irmãos dele e uma irmã, chamada Constança, partiram.

Ela em 1908 e tinha 18 anos. Membros desta família continuaram a emigrar até volta da década de 40. Nos primeiros anos do século XX também partiram para o Brasil as famílias de Joaquim Baptista, um irmão de Nicolau Maximiano e, anos mais tarde, outros familiares seus e a família de Manuel Ferreira. Mas o fluxo de maior emigração começou em 1957 para o Canadá. As primeiras pessoas que partiram eram rapazes jovens: José Maximiano, Francisco Duarte, Augusto Reguengo, José Caetano, José Governo, António do Angelo, José da Agueda e Santrocato.

Depois, foram-se chamando uns aos outros e muitas famílias completas partiram. Hoje há uma grande comunidade de portugueses espalhados por várias cidades do Canadá. Também em 1957, emigrou para França António Santos Maximiano, que foi o primeiro emigrante de Moitas Venda naquele país. Começou a guerra Colonial em 1961 e muitos jovens fugiram ao serviço militar, procurando como refúgio a França. Iam de noite por montanhas e campos, a pé, escondendo-se ao controlo das fronteiras e, ilegalmente conseguiram entrar naquele país. Os primeiros jovens que o fizeram foram Manuel Sacramento Neves, José Alho Antunes e Vítor Manuel Ferreira Silva.

Com o 25 de Abril e a entrada de Portugal para a União Europeia, a emigração acabou e aconteceu que alguns filhos de emigrantes nossos conterrâneos quiseram voltar para a nossa terra, fazer aqui suas casas e organizar as suas vidas. Também alguns, já cansados de tanto trabalhar no estrangeiro, voltaram de todo para aproveitar o tempo de reforma na terra que os viu nascer.

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Cmsv